UBE - PE - MOVIMENTO UNIÃO PELAS LETRAS No último dia 05 de janeiro de 2011, tivemos eleição da Diretoria da UBE em Pernambuco. A proclamação da recondução do Movimento União Pelas Letras à direção foi realizado com a presença da nova diretoria e o discurso do presidente reeleito, o escritor Alexandre Santos. 
Foto oficial da nova diretoria. Entre outros poetas e escritores, a poetisa e contista Jacqueline Torres (de pé à esquerda). Tive a honra de ser convidada a compor a direção da UBE (União Brasileira de Escritores, secção Pernambuco). Os desafios são muitos, o despreendimento para a divulgação da literatura pernambucana, também. Trazer para a cena literária quem ainda não está, avigorar as atividades e eventos realizados pelo Movimento União Pelas Letras é primordial. O trabalho é grande, mas o prazer de trabalhar com literatura é maior. Desejo a todos nós muitas realizações e conquistas para essa nova gestão. ( Jacqueline Torres )
Nova Diretoria da UBE- Secção Pernambuco
Diretoria Executiva Presidente: Alexandre Santos Vice-presidente: Geraldo Ferraz 1º vice-presidente: Silvio Hansen 2º vice-presidente: Cristiano Ramos Secretário-Geral: Cássio Cavalcante 1º secretário: Jair Martins 2º secretário: Rachel Carrilho Tesoureiro Geral: Rosa Bezerra 1º tesoureiro: Rogério Generoso 2º tesoureiro: Vanessa Campos Administrador Geral: Salete Rego Barros 1º administrador: Marcos Andrade 2º administrador: Jaqueline Torres Departamentos Artes Plásticas: Fátima Almeida Música: Dulce Albert Teatro: Altair Leal Língua Portuguesa: Telma Brilhante Intercâmbio Nacional: André de Sena Intercâmbio Internacional: Laura Areias Promoção Cultural e Eventos: Suzana Moraes Imprensa: Fernando Farias Capacitação: Sônia Carneiro Leão Patrimônio e Acervo: Tavares de Lima Pesquisa, Ciência e Tecnologia: Antônio Filho Neto Jurídico: Adalberto Arruda Direito Autoral: Meca Moreno Conselho Fiscal Titulares: Nonato Magalhães, Paulo Dantas, Bezerra de Lemos, Luiz de Souza Leão, Socorro Costa Suplentes: Zélia Monte, Edvaldo Bronzeado, Lúcia Sobral, Myriam Brindeiro e José Alves Sobrinho
Escrito por jacqueline Torres às 01h16
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DAS LÁGRIMAS  Cherylene Dyer Em que espaços decaem as minhas lágrimas, que tanto tento contê-las e não consigo? Que espaços profundos são esses que todo choro derramado ainda não deu no seu limite? ( Jacqueline Torres - 22/07/2010 )
Escrito por jacqueline Torres às 23h28
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O TEMPO DO POEMA  Anne-Julie Aubry O tempo escorrega nas letras do meu poema e em cada verso um segundo, em cada poema um minuto E ao fim, naquele ponto estou eu um pouco mais velha Falta em mim uma lágrima tenho a mais um soluço. ( Jacqueline Torres - 09/02/10 )
Escrito por jacqueline Torres às 01h59
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Para os amantes da escrita uma boa pedida é ter bem à mão um bom dicionário, eu, por exemplo, tenho mania de ler dicionário, isso mesmo, ler, às vezes nem pesquiso, leio, vou de um verbete a outro com um prazer de doido que descobriu a roda. Além do tradicional, vou sugerir que acessem o dicionário português online www.dicio.com.br com 400.000 verbetes. É excelente!  Bom, aproveitem bem a sugestão, vale à pena!
Escrito por jacqueline Torres às 16h42
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Imagem da Internet UM DIA DEPOIS DO SÉCULO Pela rua caminho com os braços às costas e vou pensando na vida e nos meus passos leves que afundam mansos na areia... Agora, nada mais me absorve nem os astros, nem as leis, nem a ciência Apenas uma areia fina e branca que marca em minhas sandálias as leves e passageiras marcas de meus dedos. Nesse estirão de rua sem asfalto e de luz opaca retenho uma lembrança nostálgica do futuro Mas como reter em si uma lembrança além da ordem do tempo? Se lembramos do que passou e pensamos no que virá Mas o poeta antevê e antecede esse fragmento E vejo através dos séculos talvez no mesmo trajeto o mesmo vagar, moroso e quieto do meu fantasma. ( Jacqueline Torres - 08/01/09 )
Escrito por jacqueline Torres às 23h35
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NUDEZ
Mystique - Hanry Asencio Fico nua quando digo teu nome... Dizê-lo é como me vestir de brisa, de suave cassa... ( Jacqueline Torres - 20/10/98 )
Escrito por jacqueline Torres às 21h39
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SOMBRA  Imagem da Internet Minha sombra não me acompanha ─ ela vai dentro de mim... Onde sou noturna e queda Onde adormeço com a alvorada e desperto com o anoitecer Minha sombra obscurece meu silêncio E meus gestos são asas escuras que acenam e que suplicam Meu rosto não revela minha sina Minhas dores não se revelam no sorriso Eu passo tão rápido, tão rápido que mal me veem... Acham apenas que viram uma sombra um vulto Que às vezes surge que às vezes foge que hora existe Mas que aos poucos morre. ( Jacqueline Torres - 30/05/09 )
Escrito por jacqueline Torres às 15h21
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A FLOR E O CHARCO  Leucojum Aestivum Dera eu fosse o charco sombrio e denso que das sombras aparentemente mortas rasga do ventre escuro um ramo verde adornado de delicada e alva flor. ( Jacqueline Torres - 24/07/09 )
Escrito por jacqueline Torres às 23h30
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ENQUANTO  Tela de Michael e Inessa Garmash Enquanto dormes Escrevo Enquanto escreves Sonho Enquanto sonhas Pinto o tempo Serás sempre dia Serei sempre noite Mas um dia, por um instante sei que fomos a irregular e imprecisa fragilidade da aurora, a mornidade da boca-de-noite... Mas nosso tempo não ficou preso nas mãos, nem no retrato Nenhum calendário guardou-nos, passamos nos ultrapassando... e enquanto ias pro leste, fui mais além Enquanto voavas por teus céus diurnos Perdi-me pelo o horizonte e caminhei mais que as horas... Estamos tão longe... enquanto sonhas eu sonho Somos feitos da mesma matéria aérea E por dentro de nós uma reticência fixa nos olhos um adeus que não terminou... ( Jacqueline Torres - 16/08/09 )
Escrito por jacqueline Torres às 02h21
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TRAVESSEIRO  Imagem da Web - desconheço a autoria Meu travesseiro pesa. Afundo nele sonhos estranhos, informes Tristezas, soluços, rezas a cama do descanso é também do desespero do desterro na enfadonha preguiça... Pelas paredes grudam-se as palavras do poema como muriçocas tísicas Como a leve poeira que cobre o meu coração cansado. ( Jacqueline Torres - 29/01/2009 )
Escrito por jacqueline Torres às 02h57
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INFORME LITERÁRIO 
O MOVIMENTO "LITERA PE" TRAZ A OUSADIA PRÓPRIA DAQUELES QUE QUEREM INSUFLAR MAIS ARTE POÉTICA NO NOSSO COTIDIANO, ABRINDO A DISCUSSÃO DA IMPORTÂNCIA DA LEITURA E DO ESPAÇO QUE DEVE EXISTIR PARA TODO AQUELE QUE ESCREVE POESIA, ESPECIFICAMENTE EM NOSSO ESTADO, ASSIM, ESTARÁ SENDO LANÇADO DIA 09 DE JULHO/09 A ANTOLÓGICA COLETÂNEA “ CEM POETAS SEM LIVROS” DA QUAL EU TENHO A HONRA DE FAZER PARTE. O LANÇAMENTO ACONTECERÁ NO INSTITUTO MAXIMIANO CAMPOS (IMC) – CASA FORTE – RECIFE/PE TEREMOS RECITAL POÉTICO!
Escrito por jacqueline Torres às 15h49
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" O POETA SENTE AS PALAVRAS OU FRASES COMO COISAS E NÃO COMO SINAIS, E A SUA OBRA COMO UM FIM E NÃO COMO UM MEIO; COMO UMA ARMA DE COMBATE." ( Jean-Paul Sartre, filósofo francês, século XX )
Escrito por jacqueline Torres às 16h36
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BELA, COMOVENTE E ETERNA CECÍLIA MEIRELES

"Adestrei-me com o vento e minha festa é a tempestade."
"E minha alma, sem luz nem tenda, passa errante, na noite má, à procura de quem me entenda e de quem me consolará..."
"Aprendi com a primavera; a deixar-me cortar e voltar sempre inteira."
"Basta-me um pequeno gesto, feito de longe e de leve, para que venhas comigo e eu para sempre te leve..." Cecília Meireles
Escrito por jacqueline Torres às 14h03
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AS MÃOS, OS DEDOS  Pintura - Pino Dangelico Minha mão envelheceu e está cansada cansada de todas as palavras tristonhas que é só o que eu conheço Meus dedos de gravetos são longos e tortos pelo o meu vício infantil de estalá-los Nunca conseguiram suster os sonhos nas palmas de minhas mãos Minha mão envelheceu e risca poema decrépito e inútil Cheio de intolerâncias e pungente se sobrepõe a mim, porque não o determino, Mas escapa traiçoeiro entre meus dedos vetustos que nada mais vicejam, só se entrevam longe de minha alma. ( Jacqueline Torres - 26/02/09 – 12h05 )
Escrito por jacqueline Torres às 12h48
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MARÉ 
O Beijo ( Pastel e carvão s/ papel ) - Rudson Under Vem, inunda minha boca Com tua maré de língua espuma de saliva doce pra aliviar o amargor que sinto mudo e insulso Na ausência de beijos que venham da alma e que tragam de lá esse caudal cristalino e estrepitoso das águas que inundem a dimensão de meu corpo. ( Jacqueline Torres - 14/01/09 – 3h41 )
Escrito por jacqueline Torres às 11h30
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FESTANÇA

Maxfield Parrish - Ecstasy
Vou enfeitar os meus cabelos com flores e na saia do meu vestido eu vou fazer um bordado de lua e de estrelas que tatuarei também pelos meus braços, no meu dorso, no meu peito e acenderei um sol no meu ventre quando desmanchar de mar os meus olhos que rirão como beija-flor Vou dançar ao luar os passos macios de rosas rosas Vou fazer festa antes de sussurrar repetidas vezes aos teus ouvidos de concha ... que te amo... ( 06/03/09 – 1h13 )
Escrito por jacqueline Torres às 22h04
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" Quando falares, cuida para que tuas palavras sejam melhores que o silêncio." ( Provérbio Indiano )
Escrito por jacqueline Torres às 17h57
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VERSO TRISTE  Rafal Olvinski Meu verso cortei-lhe as asas e ele ficou à-toa, à-toa... Passa peregrinando nos caminhos já não voa, já não voa... ( Jacqueline Torres - 23/04/09 )
Escrito por jacqueline Torres às 17h54
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QUEM ME VÊ NÃO VÊ DIREITO  Caspar David Friedrich - Mulher à Janela, 1822 Meu pé sobre a cerâmica escura vai marcando compassadamente o andamento da música que ouço Meus olhos enxergam além da sala, além da grade da janela, além da rua, além, muito além... quem me vê não vê direito E meu semblante sereno não dá a conhecer o que medra dentro de mim A irreversibilidade da paz violada pelo caminhar moribundo dos dias. ( Jacqueline Torres - 21/04/09 – 12h05 )
Escrito por jacqueline Torres às 16h10
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DEPOIS QUE FALARES

Michael Garmash - Morning Beauty
Pressuponho que serei feliz pelo curto tempo em que me disseres “bom dia”, e então, logo em seguida voltarei a ser o que sou, ─ triste... ( Jacqueline Torres - 23/04/2009 )
Escrito por jacqueline Torres às 15h02
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ALVURA
Imagem da Internet Perduro teimosa rabiscando bobagens em folhas tão alvas, tão alvas como o meu antigo sonho que hoje começa a se tingir de azinhavre. ( Jacqueline Torres - 29/01/09 )
Escrito por jacquelinelenin às 04h22
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O JOVEM ARTÍSTA  Julie Hill O cabelo de cachos desalinhados caiam-lhe na testa e nos olhos. Era esguio e desconforme no vestir. Achavam-no um vadio, um desajustado. Mas eu apenas via um jovem e irreverente poeta... Músico, artista Sua alma era maior que ele Mas todos só viam os cachos desalinhados de seus cabelos. ( Jacqueline Torres - 09/02/2009 )
Escrito por jacquelinelenin às 03h25
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DECANTAÇÃO  Perfil de Mulher - Óleo sobre Tela - Eduardo Cambuí Júnior Preciso decantar destes meus versos o lirismo ébrio e o enfado das palavras Preciso sincronizar o juízo, os batimentos do coração a brevidade de minhas mãos e os meus pés aflitos... Preciso ser precisa quando sou em falso e ao invés do incerto ser enfática Conclusiva a um mesmo tempo que sou dissoluta E findar estes versos sem circunlóquio Fazer seu trajeto mais exato que meus olhos, mais circunspecto que minha “singular figura”, viageira das palavras de terra e de vento Eu preciso não terminar o poema não terminá-lo... Só de raiva! ( Jacqueline Torres - 02/02/09 )
Escrito por jacquelinelenin às 02h30
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ENTREGA  Imagem da Internet Deito o meu corpo molemente sobre o teu nome Assim como se derrama o óleo em superfície lisa.
( Jacqueline Torres - 07/02/2009 )
Escrito por jacquelinelenin às 02h02
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" A POESIA TEM UM PERIGO DE MORTE... " ( Jacqueline Torres ) 
Mateu Velasco
Escrito por jacquelinelenin às 11h51
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POR ONDE ANDAM TUAS MÃOS?  Michael Garmash - By The Shore Que facilidade tinham tuas mãos para tocarem a minha alma e teus olhos para perscrutarem todos os meus sentidos, descendo pela textura escura e incerta de meus segredos... Onde andam tuas mãos? Que pétalas, que brisas, que nuvens acaricias? Que ventos noturnos escondes entre teus dedos? Minha alma está parada numa bifurcação Tenho olhos imóveis reparando a estrada que não vai dar em nada porque nada devassa o meu prazer mais do que o carinho morno de tua boca a voz de luz antiga que me sussurrava Que facilidade, que leveza tinham tuas mãos para tocarem meu coração... Que cuidado, que zelo dissipou vida afora tua afeição? ( Jacqueline Torres )
Escrito por jacquelinelenin às 05h06
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MEU CANTO - II  Desconheço a Autoria Meu canto de chuva e de água de rio Meu canto de terra vermelha de terra seca, nutrida de pedra e tempo Meu canto ventania de folhas leves Chuvisco azul que cai manso em chão morno de brasa e coração aéreo. ( Jacqueline Torres - 14/01/09 )
Escrito por jacquelinelenin às 04h25
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 Imagem da Internet. Desconheço a autoria. A FOLHA Algo veio de fora com o vento pela janela Uma folha seca voou e grudou em meus cabelos E a fragilidade da visita me despertou de escuras poderações sobre a vida, semelhança de luto e lágrimas, E a folha já gasta e crendo-se inútil e sem proveito foi despertador simplório e certo pra arrancar do meu juízo os meus pesares e da comodidade dolente a minha destra. ( Jacqueline Torres )
Escrito por jacquelinelenin às 03h01
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BREVE Com que brevidade me fogem as palavras do poema? São folhas secas muito leves que os ponteiros magros do relógio não sustentam E o poema não se constrói, não se firma é absorto e fugaz é impreciso... O vento que sopra meus cabelos faz remoinho das idéias e assim esfacela-se a frase Não tenho em mãos uma lista infinda de adjetivos, de monossílabos... não tenho. Com que brevidade me chegam aos cutucões os versos que volitam por minha cabeça e que me escapam pela fresta da boca como oração? Com que brevidade me vejo indiferente na rua e dentro do cotidiano monótono dos meus dias? Com que brevidade vivo e passo, e passo pela vida? ( Jacqueline Torres - 20 – 21/06/06 )
Escrito por jacquelinelenin às 19h50
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Poema

by Isabel Moreira
REBELAR-ME
Não tenho como me saber...
Quando vejo que no reverso do espelho
apanharei minha imagem,
lépida e irônica me escapo!
É sempre uma esquina onde dobro
é sempre no pulo outro ar de riso
e eu sigo num redemoinho
impreciso
tentando me alcançar
e nunca alcanço
Não tenho como me saber...
Só tenho como parafrasear
meu espanto.
( Jacqueline Torres )
Escrito por jacquelinelenin às 03h20
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VOCÊ EM MIM
Evola-se tua
imagem em mim
assim
como a fumaça
se dissolve
e se envolve
calmamente
à lenta e cândida
nuvem...
( Jacqueline Torres )
Escrito por jacquelinelenin às 01h15
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Nanquim: Julia Vaz
PARA LER POESIA...
A Josiel Galvão
Precisamos ler poesia
como se revolvêssemos terra escura
para deitar nela as sementes da rosa mais delicada
Amaciar o terreno com mãos puras
e depois,
sentar serenos em uma pedra
e esperar compassadamente
a leveza da chuva
azul de luz e morna de cristais
para orvalhar
mansa e fecunda
a profundidade da semente adormecida.
E só os corações abertos podem empreender esse ritual
só os corações com asas podem encerrar
esses mistérios que cantam
no poema e no seio da terra.
( Jacqueline Torres - 15/01/09 )
Escrito por jacquelinelenin às 16h15
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UM CANTO PRA MORTE
Não será ameno o meu canto
quando a morte voejar minha cabeça
terei nos olhos riachos, não, rios de pranto
e pela face a marca funda da tristeza.
Meus poemas serão amargos e sombrios
não terei cantos leves e suaves, abissais
Não terei nada,
além de uma profunda certeza
que parto,
que deixo os que amo
─ nada mais.
( Jacqueline Torres )
Escrito por jacquelinelenin às 12h51
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Desconheço a Autoria
O VOO
( A Wallace Wandayk )
Minha alma
voou, voou
além das nuvens
acima das flores temporais
Só quem voeja
me acompanha o voo
Pois quem rasteja
não me alcança mais.
( Jacqueline Torres )
Escrito por jacquelinelenin às 02h49
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Serigrafia: Mateu Velasco
CONSPIRAÇÃO
Tenho insônia ─
e a hora tem gosto de soro.
Riso e tristeza
misturam-se no tacho velho do meu peito
O coração azinhavrado sopra a brasa castanha
dos meus olhos
Acesos, conspiram contra mim
Vou calculando o passar preguiçoso
dos minutos
na nulidade do tempo
Só olhos encovados
guardarei para a manhã
desejos proibidos
e vontades tortas
pra secarem
durante um dia sonolento.
( Jacqueline Torres )
Escrito por jacquelinelenin às 14h33
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Fotografia: Luiza Helena de Jesus
A PRAÇA
A praça está vazia
a grama assanha-se com as folhas secas
Não há casais namorando
Não há crianças brincando
A praça está vazia
Vem visitá-la apenas os pardais
e a chuva que vem sentar-se nos seus bancos
e o vento que continua eternamente soprando
desalinhando a cabeleira das árvores
e enchendo de folhas secas o assanhado da grama.
( Jacqueline Torres - 12/12/08 )
Escrito por jacquelinelenin às 14h23
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OS SONHOS E OS CARROS
Os carros passam velozes
ao meu lado
Vejo que meus sonhos
vão no trote urgente de suas rodas
Só os meus pés
caminham
na lentidão
de um burro velho e cansado.
( Jacqueline Torres )
Escrito por jacquelinelenin às 14h13
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PENSA
" HÁ QUEM PASSE PELO BOSQUE E SÓ VEJA LENHA PARA A FOGUEIRA. "
( Tosltoi )
" Nenhum vento sopra a favor de quem não sabe para onde ir. "
( Sêneca )
Escrito por jacquelinelenin às 14h07
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MEMÓRIAS
Ouço o cacarejar calmo das galinhas
num dialeto antigo e infantil
Tem cheiro de fumaça de lenha e de colchas de retalhos
Água doce e gelada despertando do sono morno
descendo pelo o lajeiro
sumindo no barro do chão onde morre.
O galo que canta hoje
parece-me fugido de um tempo bem distante
da efervescência de minhas felicidades
E o tesouro das lembranças reluz tão intensamente
que chega a queimar o peito
e pouco posso dividi-lo com os meus...
Manhãzinhas douradas cheirando a café preto coado
com bolachas brancas
Manhãzinhas com gosto de jabuticabas pretinhas
enfeitando os dedos, as palmas das mãos...
O crespo dos lajeiros,
o alastrado, os mandacarus...
De novo o cacarejar contente das galinhas,
o bem-te-vi...
A distância os braços quentes de minha avó
São tão quentes como minhas lágrimas solitárias e passageiras,
assim como eu mesma pela vida ligeira
que me transporta pelos dias
pra dias que hoje me parecem paises distantes
pra terras em que não hei de voltar...
Sonhos de doce de leite
despertos, ora vejam,
pelas galinhas...
( Jacqueline Torres - 01/08/07 )
Escrito por jacquelinelenin às 14h03
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POEMA
DE TRÁS PRA FRENTE - MÕMON, MAMÁ E BOBÔ
Se eu digo poeira de estrelas de um,
digo da outra e do outro
Digo luz do sol
Imensidão de mar
E como o imenso universo
desconheço a dimensão do amor
de um, da outra e do outro
Pores de sol nas retinas
cor de lua nos sorrisos
e vejo a eternidade temporária de minhas células
noutra forma
E tudo tem grandeza de mistérios
e simplicidade de chuva
E minha retina vê-los e revê-los e trevê-los
e tudo de novo
sem me importar com essa cadência
sem queixa de sentir os cheirinhos macios,
o som das risadas,
as birras,
as vozes, os gestos...
No peito cabe todo o tempo
O tempo é vê-los e tocá-los
e nada é suficiente para amá-los
Sereno de madrugada
manhãs de sol de verão
espuma morna do mar
E a eternidade concentrada no que me eterniza
a doce
e tépida
e macia palavra...
Mamãe.
( Jacqueline Torres )
Escrito por jacquelinelenin às 10h57
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POEMA

Arte: Celito Medeiros
PEDIDO DE DESCULPA
Peço-te perdão
pelo o que te fiz
e pelo o que não te fiz
Peço-te perdão
por meu silêncio, minha reticência,
meu olhar inconcluso
minha distância de estrela
minha brevidade de raio
minhas sombras de noite
Peço-te perdão
por mim e por você
Sou imperfeita,
afeita às estradas
a uma solidão perdida na multidão
presa às horas
e a minha prática lírica e reticente...
Perdão por seres tudo o que és
e eu ser só o que sou.
( Jacqueline Torres )
Escrito por jacquelinelenin às 10h39
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POEMA
E eu que tola fechei as portas
e cerrei as janelas
e me guardei no último quarto, na última sombra
e cobri-me com a monótona manta da conformidade,
opaca e muda...
E viestes e abristes habilmente uma lasca em minha janela
e precipitastes cheio de luz o meu recinto
e relutei em ver a luminosidade doce que incendiastes no meu peito...
Tola relutei,
na teima assustada do descaso
Enveredastes pela janela e me fizestes o claro de espinhos
e flores espalmadas, no silêncio guardado
de minhas palavras gritantes e que as escondia de mim.
Enveredastes por minha janela
e de lá invadistes o território seguro de meu peito,
com teu olhar quimante
com teu riso de água.
E eu prendo-me agora no que escrevo
e esmoreço vendo a casa invadida de luz
e planto minha roseira ao pé de um vulcão
e alimento-a com lava e seiva rósea
Tola não me dou conta de que me nutro de uma fogueira...
E construo o meu poema
somente se tu me vens.
( Jacqueline Torres )
Escrito por jacquelinelenin às 11h55
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POEMA
CAMINHO 
Giselle - Tela - Michael Garmash Ando um pouco entristecida com a vida um pouco zonza, um pouco falha... À sombra das duas décadas e meia me despeço quando trago de longe o peito escuro e solitário Não transcendo não vôo, não caminho Ando abstraída e indefinida sozinha, triste e taciturna Um pouco desacreditada um pouco insana. Quanto mais ando mais me perco quanto mais aspiro, mais esmoreço Vem-me o mesmo desgosto a mesma ironia - e já não sou feliz. Não serei mais. Acostumada ando com estas sombras, estes fantasmas essa tristeza intrínseca e permanente. Esta miséria costumeira - meu pesar. ando um pouco enlouquecida um pouco inerte e ainda humana um pouco imóvel, um pouco de muitas coisas... À sombra destas duas décadas e meia de delírios não me sobra nada, além de mágoas e de tristezas Um pouco de martírio e muito de adeus. ( Jacqueline Torres )
Escrito por jacquelinelenin às 10h09
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POEMA
NOTURNA

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Sou vigia da noite sou coruja que vela noites de escuro Sou rasga-mortalha que assombra que assombra as sombras da noite Sou guarda-noturno de quartos, de quartos pálidos, de quartos que pulsam... Sou voz enfadonha de relógio e o inaudível pulsar cardíaco. Sou a última estrela que sai - a primeira que foge a estrela cadente que passa efêmera na noita que cai. Sou vaga-lume das sombras dos arvoredos da copa escura das árvores dos quintais... Sou vigia da noite... e vago como os fantasmas esmiuçando os minutos brincando com os ponteiros, velando o sono dos outros. Sou da noite, não do dia Sou da lua, não do sol Sou noturna como o mistério Sou silêncio... Sou como a hora arrastada Sou como a noite, tão só... ( Jacqueline Torres )
Escrito por jacquelinelenin às 09h48
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POEMA
AO DEZESSETE DE SETEMBRO
O silêncio que marca os quadrantes
que ponteia o resumo das horas,
faz de mim ainda mais delirante
faz de mim recordação e silêncio...
Reminiscências felizes, outras dolorosas
no silêncio que marca os quadrantes.
Pouco a pouco escapole esta tarde
airosa, nostálgica, casual e esquecível
nesse quieto desassossego tangível
outras horas inda mais inquietantes.
As flores da infância apagadas
O sonho que passa, que passa
no silêncio que marca os quadrantes.
Os castelos que descem às sombras
nesse ritmo repetido que traça
os minutos que tangem as horas
de outra primavera vã, deprimida
vou ficando ainda mais nos instantes
mais antiga, mais densa e esquecida.
Tudo isso que arroja os sentidos
e que segue meu passo - incessantes
são as sombras dos dias que passam
que escapolem na brisa que corre
que entristessem essa alma que morre
no silêncio que marca os quadrantes.
(Jacqueline Torres )
Escrito por jacquelinelenin às 13h55
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http://br.youtube.com/watch?v=-rzoGIuwgHk
O VÍDEO acima complementa o poema abaixo.
Escrito por jacquelinelenin às 12h36
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POEMA
" Quero tecer nos teus cabelos
folhas suaves de outono
em manhãs claras e perfumadas
perfumadas como as tuas mãos cheirosas de amor
Quero tecer teus olhos
no colo de meu vestido
e te cingir ao peito como tatuagem,
aragem
fagueira e morna
que balança os meus cabelos.
Quero deixar meus passos
emparelhar os teus
caminhando para o infinito
azul e leve
de dias que pareçam sonhos...
De sussurros que pareçam vento.
Quero tramar meu nome no teu
e fazer um bordado repleto de estrelas e de delírios
e depois plantá-lo em terra roxa e úmida
e esperar os pomos além dos amanhãs
que não nos guardarão... "
( JACQUELINE TORRES )
Escrito por jacquelinelenin às 12h23
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POEMA
"Que angústia insuportável marca o silêncio que precede o poema Que luta desonesta entre minha destra e a palavra. O verbo é cortante feito uma faca. E o atropelo da escrita parece um vaso de óleo encharcando o vazio da folha... Que angústia insuportável marca o momento dessa aflição que espeta o juízo no silêncio que finda o poema". ( JACQUELINE TORRES )
Escrito por jacquelinelenin às 18h42
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" DA VIOLÊNCIA DO RIO QUE TUDO ARRASTA
SE DIZ QUE É VIOLENTO.
MAS NINGUÉM DIZ VIOLENTAS
AS MARGENS QUE O COMPRIMEM. "
( Bertolt Brecht )
Escrito por jacquelinelenin às 18h22
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POEMA

Escrito por jacquelinelenin às 14h08
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CONTO

Foto: Francisco Souza
AMPLIDÕES
Escorou-se no vão da janela aberta pro fim da rua. Para os casebres que pelejavam em existir na sequidão da fome e do chão seco forrado de basculho e cascalho. O chão das vias sem fim. Espiou vagarosamente com os olhos estreitos abraçados pelas lágrimas, visões passadas. Dias que ficaram lá para trás. Em ontens muito distantes. Em saudades sem cores. Em dissabores e penas tantas.
Valdirene via o giro alumiante e cegador do solão lá no alto, engolindo as sombras magrinhas e assustadas. E, antigos malassombros faziam munganga na vaporização que tremia. Que confundia a alma. Valdirene retornava ao tempo com seus pais. Tempo de desabrocho, de vontades e de sonhos puros. Tempo que a dementice negava desilusão e nas asas dos sonhos idealizava exílios para o coração. Longe, bem longe daquele fim de mundo onde o Cão perdeu as esporas.
Era ainda menina quando os sobejos do peito lhe atazanaram a paz. O juízo fazia corrupio no quengo e ela se julgava adoidada. Não lhe parecia que alguém imaginasse a vida como ela. Despanaviadamente.
Pôs-se a se encantar, por qualquer desgrama de homem que a cegueira lhe traçasse perfil de príncipe...
O São João era chuvoso. A fogueira ardia com dificuldade sob a librina teimosa e Valdirene fincava no tronco verde da bananeira faca virgem comprada na última feira. Olídia lhe acompanhava. Avalizava a besteira. O pai reclamou o passeio sem cabimento e sem proveito às bananeiras do oitão da casa aquela hora. Debaixo de chuva, inda mais.
Tudo era merecedor do sacrifício. A superstição traria a sorte do nome de seu homem.
Se aquela era a letra, ou era letra, desconfio. Mas, Valdirene e Olídia enxergaram na mancha leitosa na lâmina, um S... Traria a graça Sebastião... Salustiano... Severino... Silvano, Olídia achou mais provável. Era nome mais vistoso e moderno, mais do que esses nomes encontrados em almanaque do Biotônico, Sadol, ou sei lá mais o quê. Valdirene se ria toda. Já quase via o dono do nome.
Correu os dias e uma rezadeira forte lhe botando fora os olhados da lindeza que a natureza lhe despojara na pequena figura, espiou-a bem dentro dos olhos. Escorou no quadril largo a mão cheia de anel de acinique, pendendo um molho murcho de alecrim e preveu com voz fanhosa. Deitou fora sua sina. “O homem que lhe teria de conquistar era alto. Forte. Vinha de longe”. Perguntou de onde. A benzedeira não podia também ser tão direta. Assuntar com as fontes divinas que lhe mandavam as informações de onde vinha o fulano não era de acordo. Mas via uma letra de nome, pela luz que a Virgem Imaculada (Madrinha de pia de Valdirene) lhe pusera nas vistas. “Era um A!”. Um A? Ôxi, e o S da faca? A benzedeira neta de cigano enfezou-se. Não era cega. Afirmou a letra. Tal qual a cangalha dum bode. “Vejo tu im vistidura alvinha alvinha. Sem pinura, sem grião, sem sufrimento. Percure, mia fia. O moço tá de espera. O Raivoso num há de te pô mau insejo nem dificulidade nesse casório.”
Mais tarde um cego cantador, garrado de sua viola no afã de uma esmola, cantou-lhe um mote: “É a beleza dos amor de te sorrir, nesse mundo largo só de fulô singi teu camin cum custura de fogo, cum moço caboco qui longe num tá, mas ali, bem perto de ti, morena bunita.” Êita véi cego da gota! Via-lhe a boniteza com os olhos no breu. Depois dos trocados ganhos de Valdirene ainda emendou: Ele tá bem à mão, pertinho, pertinho. Danousse! O diabo do cego dizia coisa diferente da rezadeira. Em quem acreditar? No coração.
Deixou-se esquecer das profecias. No mesmo dia enfeitou-se de ruge, um vestido com uma lapa de bordado que tomava o peito todo. Bico por tudo que era canto. Atrás das orelhas, nos sovacos e no meio dos peitos derramou um frasco de perfume forte e abriu para a Procissão da Virgem da Conceição, sua Madrinha. Era, então, dezembro. A cidadezinha festejava a sua querida Padroeira.
E o destino estava de bote armado. Um quixó colocado bem embaixo de suas ventas.
Na maior risadagem com Olídia, virou na roupa domingueira dum sujeito um copo de cajuína. E o coração gemeu vendo os olhos do cabra sarará a sua frente.
Não era alto. Não viera de lugar mais distante do que o Sítio das Coité. Não era vistoso. Não trazia sua graça escrita com S ou A, como previu a faca e a rezadeira. Genilson era nome de Pia. Escolhido pela mãe. Nem nome, nem alcunha assinava o portador. Era analfabeto de pai e mãe. Ignorante e desavisado pra vida, nunca vira futuro em estudar. Se bem ou mal comia, o resto era coisa que não lhe fazia falta.
Jogou gracejo, acerou a atenção de Valdirene e, aluada, feito quem se ver presa num redemoinho, caiu na emboscada que o cabra armara na vozinha fonhem. A bandinha executava um dobrado e Valdirene dobrava as esquinas e debandava no destino.
O pai lhe pôs tocaia. Distratou-a de cachorra doida, de quenga, de nome feio que arrepiava cabelo de beata. A mãe teve um passamento. Os irmãos queriam lhe dar uma surra de vara. Duas irmãs viraram-lhe a cara. Era uma vergonha! Nem Olídia quis mais conversa com ela para não ficar falada.
O juízo de Valdirene friviando na trovoada da paixão nem deu importância com o esbandalho da família.
E seu Estevão para não acoitar o desmantelo da filha mais nova pensou em enxotá-la de casa. Ameaçou. Talvez intimidasse a doida e ela deixasse aquela trepeça. Cachaceiro infeliz!
Perdeu o tempo e a saliva. Valdirene ganhou a noite e foi para os rela-buchos onde quer que houvesse um. De um deles não voltou. Genilson socou a miserável que vivia com os dentes no quarador, dentro da casa da mãe. Onde comem dez, onze comem também. Casamento era coisa sem futuro. Era só se amigar e pronto! Se Genilson queria assim, assim faria. Amigou-se.
Os dias eram de cantiga. Genilson não bebia. Era só de xamego a vida de Valdirene. Passou a nutrir uma raiva de doido pela própria família. Corria para não peitar com um deles em dia de feira. Mesmo a mãe não lhe inspirou compaixão. O pai? Queria vê-lo seco numa cama. Os irmãos? Três defuntos sem enfeite comendo terra. E as irmãs que se danassem para o inferno. A sogra era a mãe que precisava. O magote de cunhado que tinha, sua família. A mundiça estava de canga e corda com Valdirene.
Espiava agora, da janela lembrando dessas coisas. O sol torrando o mundo e o juízo doido vendo sua mãe dançando um coco com seu pai e a rezadeira. Até sua sogra defunta feia que só ela, batia o pé no chão dando pinote com os seus defuntos risonhos. Chorava então, feito criança. Reparava o céu tão azulzinho querendo perder de vista aqueles malassombros que lhe incomodavam e quando os olhos caiam no terreiro de novo lá via os defuntos velhos brincando de roda com seus quatro filhos mais novos. Lá no canto, debaixo do mulunguzeiro avistou Maria Ivanise de quatorze anos e uma barriga de cinco meses. Os olhos perdidos muito longe no fim da rua. Era analfabeta tal qual o pai. Só não trouxera a voz fonhe do traste. Mas, até o cabelo era ruim.
Espiava a filha, triste, enquanto se pensava avó d’algum pobrezinho que o pai dera no pé depois de desgraçar aquela criatura. Se não fossem as cachaças de Genilson entocando dentro de casa todo tipo de malfazejo. Se não fosse desprovida de juízo Maria Ivanise desde que lhe aparecera os peitos de pitomba... Se não tivesse sido criada dentro da casa da avó com aqueles arranca-rabos da mulesta... Se não tivesse sido ela doida demais se acoitando com aquele cabra sarará que lhe parecera o céu e que se tornara o seu inferno... Se...
A alma penada de sua mãe, agora lhe olhava triste, triste de dar dó no coração e a sogra fazia munganga feito o Cão Tinhoso. Os malassombros deixaram de dançar coco e só a rezadeira filha de ciganos ficou rodopiando feito redemunho e dando gaitada dela.
O céu lhe pareceu pouco e a vida curta feito a saia de Maria Ivanise. O coração lhe pareceu imenso e a alma tão grande que lhe escapou pelas ventas e misturou-se com o cheiro da terra com o vento que zumbia nos panos das saias das defuntas e na aba larga do chapéu do finado Estevão.
De repente aquele furdunço teve fim. Chegava aos tropicões vindo sabe lá Deus de onde, Genilson. Xoxo feito um pinto com gogo, bêbado e acabado. Parecia um velho maltrapilho. Chutou o cachorro da casa e berrou um monte de besteira com o animal. As crianças brincando de roda no meio da poeira nem se espantaram com a chegada do pai. Era assim, todos os dias...
E, da janela Valdirene via sua vida em retalhos, soprados por uma ventania perder-se pelas amplidões de seus remorsos.
(06/09/00 – 20/03/05)
Escrito por jacquelinelenin às 12h10
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PENSAMENTO
" NADA DE GRANDE SE FAZ SEM PAIXÃO".
( Hegel )
Escrito por jacquelinelenin às 16h21
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PENSAR
" AQUI TAMBÉM ESSA DESCONHECIDA
E ANSIOSA E BREVE COISA
QUE É A VIDA. "
( Jorge Luis Borges )
Escrito por jacquelinelenin às 16h18
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POESIA
" Então pintei de azul os meus sapatos
Por não poder de azul pintar as ruas
Depois, vesti meus gestos insensatos
E colori as minhas mãos e as tuas. "
( Carlos Pena Filho )
Escrito por jacquelinelenin às 16h15
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CONTO
O NOIVO
Flora levou oito longos anos para decidir casar com João Silva. Relutou até que não lhe foi mais dado o direito, nem motivo de recusa.
Deleitou-se com as amigas mais íntimas, Inácia, Gorete e Fidélia, e lá pelo sexto copo de vinho declarou não suportar o noivo. Principalmente o rito que ele tinha no olho direito sempre que sorria. Chafurdou a imagem do pobre diabo e riu-se à larga da vontade na companhia das aliadas. O chá-de- panela foi a justificativa para a bebedeira. Se ganhou seis lembrancinhas, ganhou muita coisa. Mesmo porque, não se fazia necessário, já que João Silva vinha comprando de um tudo, desde a terceira semana do namoro, quase uma década atrás. Algumas coisas haviam desvanecido da moda, é verdade, tanto foi o tempo, porém, ele possuía todas. E, sem ajuda ou opinião da noiva, que por isso não tinha o menor interesse, montou toda a casa. Considerando que, não aceitou, mediante seu orgulho de provedor, nem casa alugada, nem quarto amplo junto dos sogros. Construiu uma boa moradia na parte elevada da cidade, e colocou o quarto de casal virado para o nascente, já que à noiva pouco importava sua localização. Pintou a casa de azul e se tivesse pintado de rosa, amarelo, verde para homenagear Machado, ou qualquer outra cor, nada Flora teria dito. Angustiava-se o pobre infeliz, todavia, na cegueira da paixão, do amor arrojado que sentia, relevava: “A tensão pré-nupcial é que a deixa assim... Ela tá adorando tudo!” Dizia ele aos familiares e amigos. Inácia, Gorete e Fidélia trocavam olhares quando o escutavam falar essas coisas. Davam risinhos e cochichavam entre si.
Nem marcara o relógio vinte e duas horas, João despediu-se de sua noiva no portãozinho do jardim. Algumas horas apenas, separavam-no da esposa. Não conseguia imaginar que às dez horas do dia seguinte estariam abençoados pelo Santo Sacramento do Matrimônio. “Ela precisa descansar”. Dizia o mesmo. Pois, assim como ele, ela devia estar excessivamente tensa. Julgava ele. Somente. Um beijo ligeiro, feito quem está perdendo o trem, feito quem se despede de quem não se conhece direito, foi tudo. Todavia, João conformava-se sempre: “Era a tensão!” Anos a fio aqueles afetos insossos... Mas, “era a tensão!” Pensava.
Flora ficou olhando o homem indo embora, quase correndo pela calçada.
─ Ôh lástima! Resmungou e entrou para casa.
O dia amanheceu dourado. Pardais fazendo festa trilavam em alvoroço na alta cumeeira da casa, nas janelas, nos arbustos do jardim. O pai da noiva lavava o rosto recém-barbeado, na água gelada e em bacia de ágata no alpendre do quintal. Parentes espreguiçavam-se nas camas. Passavam a ferro peças de roupa. Engraxavam sapatos... Tudo parecia ter ficado para o último instante. E a noiva? Coitada, cansada, ainda dormia! Nada de desespero! Aconselhava uma tia solteirona. Tão logo ela acordasse em pouco tempo ficaria arrumada. Gente para ajudá-la era o que não faltava. Vinte minutos de tolerância, foi o tempo dado pela mãe ao sono de Flora.
Era hora de acordá-la! Contados os minutos no relógio com testemunhas presentes, bateu pancadinhas leves à porta do quarto e anunciando a sua presença, a mãe empurrou-a abrindo.
A cama estava feita. Lençol estendido, liso, liso. Repararam o quadrado do aposento. Caso não estivesse trancada no guarda-roupa ou dentro do baú, Flora não se encontrava ali. Virgem Santíssima! Teria ido dormir com o noivo como fizera a filha de dona Guilhermina?! A mãe sentiu uma zonzeira. Corre daqui, corre de lá, procura por dentro de casa, no quintal e em cinco minutos havia se instaurado um caos. Já batiam à porta das casas dos vizinhos que não seriam convidados para a festa. Alguém levantava da cama, Inácia, Gorete e Fidélia atrás de notícias da noiva. O alvoroço era de causar dó. A mãe lastimava: meia hora antes das dez, Joselino, grande amigo de João e padrinho de casamento, chegaria para levar a noiva à igreja. E, onde estava a noiva?
A cozinha havia parado a produção para o almoço. As carnes temperadas em panelas fundas, deixavam a fervura. Os tachos com arroz e macarrão, abandonados sobre a enorme mesa da copa fazia ver apenas um detalhe do que se tornaram os preparativos para o grandioso almoço que sucederia a cerimônia. As cozinheiras tiravam o Terço pedindo, já, os auxílios do Céu através de santo forte, Santo Expedito... Santa Rita de Cássia... Santo Antônio (o santo das coisas perdidas)... Onde fora parar a noiva?
E para pôr fim ao desespero da família, chegou estabanado o noivo, avisado por terceiros do sumiço inesperado de Flora. Igual a um pé-de-vento, atravessou a casa abarrotada de gente que reclamava uma solução àquela espantosa situação. Precisava ver com os próprios olhos o quarto da sua noiva. Crer no que lhe diziam os “futuros” sogros, pois até aquele instante nada fazia sentido para ele.
Assim como entrou na casa, entrou no quarto. E, foi de desolação o aspecto da cama com o forro tão esticadinho. Se ao menos estivesse amarfanhado... Contudo, o que os outros pares de olhos não viram os seus olhos aflitos encontraram. Junto à cabeceira da cama, um pequeno envelope. Deu de garra do mesmo e nem conseguiu abrir, rasgou-o. Uma folhinha de papel de seda esmeradamente dobrada, traspassava a bela caligrafia da noivinha. Abriu-a com o temor dos condenados diante do cadafalso...
“Imburana, 12 de outubro de 1982. Mais abaixo: Caro João Silva, É com extremo pesar que lhe faço sabedor de minha decisão. Já pensada e repensada há um bocado de tempo. João, num é que eu lhe queira mal não, mas é que eu acho que eu e tu num dá certo se casando. Estimo dona Filó vossa mãe, e estimo ainda a alma do finado teu pai que Deus o tenha no reino da glória. Sei também que botam gosto no nosso casório, os meus... Nesse ponto, João Silva já tremia as mãos, pálido e de olhos arregalados: Mas, num lhe tenho tanto bem pra ser sua mulher, assim, pedindo que você João, me entenda e num me leve a mal, vou me embora de Imburana com Joselino que é pessoa de sua confiança e de seu gosto. Sem mais para o momento, desejo a você João, felicidade. Flora Aguiar Pinto.” A folha amassou-se entre os dedos descorados do homem. O rosto ficou rijo e ele foi-se embora assim como chegou. O que foi?! O que ela escreveu no papel?! Pra onde ela foi?! O que está sucedendo, minha gente?! Perguntas que ficaram sem explicação. João nada disse a ninguém.
...........................
Vendeu tudo o que tinha na casa, inclusive a casa, e tomou de cachaça.
Três anos depois, uma carta de Flora com carimbo de Pirapora do Bom Jesus, comunicava à família que era viva ainda, que tinha três meninas e que Joselino comprara um caminhão. E, João? O que era de João? O remorso ainda lhe tirava o sono vez ou outra... Por isso queria saber dele.
Sabendo da missiva, o ofendido angustiou-se ainda mais: Pois bem, disse a quem lhe dera as notícias da antiga noiva, aquela miserável num há de dormir é mais dia nenhum na vida! Vaticinou. Cuspiu no chão do botequim e foi-se embora cambaleante.
Na manhã seguinte, sua velha mãe encontrou-o duro e gelado ao lado de uma garrafa de aguardente, vazia, e de um pacote de veneno de rato... Os dedos férreos sustentavam o copo, rígidos, como sustentaram naquele dia a carta de Flora.
(Jacqueline Torres)
Escrito por jacquelinelenin às 16h12
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Poesia
Grandeza de Flor 
" PERCEBO DOLOROSA E TÃO RIDENTE QUE SOU EU MAIOR QUE A VIDA E NÃO SOU NADA." ( Jacqueline Torres )
Escrito por jacquelinelenin às 15h40
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FRASE
" Nada envelhece tão rapidamente quanto a felicidade".
( Jean Valjean - Os Miseráveis )
Escrito por jacquelinelenin às 15h38
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"Eu pronuncio teu nome
Nesta noite escura,
E teu nome me soa / Mais distante que nunca
Mais distante que todas as estrelas/
E mais dolente que a mansa chuva."
( Frederico Garcia Lorca )
Escrito por jacquelinelenin às 15h35
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POEMINHA
"EU QUERO UM COLO ARDENTE,
UMA VOZ PUNGENTE
QUE ME ENGULA O OUVIDO
QUE ME SUSTENHA AS MÃOS
QUE ME PREENCHA OS VÃOS
DO MEU CORAÇÃO SOFRIDO".
( JACQUELINE TORRES )
Escrito por jacquelinelenin às 20h02
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POEMA
Como dói o amor!
Como dói viver!
Eu quero ser nuvem
quero ser brisa...
pra logo deixar de ser
pra passar serena e lépida
e não sofrer mais
desaparecer aos poucos como fumaça
sem deixar rastro
sem deixar lembranças...
Como dói o amor...
Como dói...
( Jacqueline Torres )
Escrito por jacquelinelenin às 19h56
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POESIA
"Pensava em ti nas horas de tristeza,
Quando estes versos pálidos compus,
Cercava-me planícies sem beleza
Pesava-me na fronte um céu sem luz.
Ergue este ramo solto no caminho.
Sei que em teu seio asilo encontrará.
Só tu conheces o secreto espinho
Que detro d'alma me pungindo está."
( Fagundes Varela )
Escrito por jacquelinelenin às 19h40
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FRAGMENTO
A JACA
A MENINA ENTROU NO ÔNIBUS E, TRAZIA UMA JACA ABERTA EM BANDAS.
OS GOMOS SUMARENTOS, PORÉM BRANCOS, INCENSSARAM AS MINHAS VENTAS. E MEU JUÍZO PÔS-SE A FERVILHAR O SÍTIO DE MEU AVÔ PATERNO, CAÇANDO PEDAÇOS DE LEMBRANÇAS
QUE HAVIA ARQUIVADO NO PEITO
E QUE TINHAM AQUELE CHEIRO DE JACA,
E A BRANCURA DAS SAUDADES.
JACQUELINE TORRES
Escrito por jacquelinelenin às 16h05
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" SE A VONTADE DE ESTAR CONTIGO ME DIMINUISSE AOS POUCOS,
NADA MAIS SERIA... NEM UMA SOMBRA... "
Jacqueline Torres
Escrito por jacquelinelenin às 15h52
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" AFINAL,
O QUE É ESSA EXISTÊNCIA
FUGAZ E FRÍVOLA?
UMA EXCLAMAÇÃO!
UMA RETICÊNCIA...
UM PONTO FINAL. "
Jacqueline Torres
Escrito por jacquelinelenin às 15h49
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PONTO FINAL PRO POEMA
"Meu querer errante
tem a mobilidade dos ciganos
e nas palmas das mãos
trago o trato e o descompasso
de minha alma feminina.
Meus desejos sem destinatário
acumulam-se por dentro do peito
e vejo que findo a poesia sem dizer muita coisa
Apenas uma fresta de minutos
onde poderia ter preso o teu nome.
Onde poderia ter descrito melhor a métrica.
Mas na minha irreverência inculta
quero apenas um ponto pra findar estas palavras."
Jacqueline Torres
Escrito por jacquelinelenin às 14h38
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A CASA ( Crônica )
A CASA
(Crônica)
A casa resiste no progresso da rua. As paredes amarelo-gema têm umidade, e aspecto de esquecidas, assim como o alpendre, as portas escuras, o telhado coberto pela crosta endurecida do lodo... A hera ressequida agarrando-se ao muro, depois desmaiando sem vida, forra o nu das telhas. A mangueira... Tudo parece e é de fato, esquecido. Um esquecimento remoto e inevitável no atropelo do progresso urbano. A casa resiste solitária e calada. No muro, um gato pardo muito magro, lambe-se. Uma janela parece semicerrada. Mas não há fluxo de vida, exceto o vento que decerto corre pelas frestas, pelas gretas escuras das portas roídas, passando pelos vãos. Nada há de lembranças nela. Mas eu não consigo esquecer o desinteresse da casa, seu acanhamento na rua de casas novas. Na rua de asfalto novo. A casa resiste poderosa em minha lembrança. Ela é concreta. Sobrepõe-se as demais, sobrepuja-as por sua relíquia. Quem ela amparou? Que risadas, que lágrimas guardam suas paredes? Que passos, que carreiras infantis seu piso silenciou no vazio dos dias que passam enquanto ela envelhece? Que espíritos de mortos ainda zanzam por seus cômodos vagos? Que espíritos de vivos, além do meu, guardam a sua imagem?
(Jacqueline Torres) ( 06/04/06 )
Escrito por jacquelinelenin às 15h33
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Garimpo...
" SOMOS ETERNOS CAÇADORES DE NÓS MESMOS, ANDAMOS VIDA AFORA NO NOSSO ENCALÇO E MESMO QUE ISSO NOS CUSTE, É O QUE NOS MANTÉM VIVOS. "
Jacqueline Torres
Escrito por jacquelinelenin às 13h52
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